Aventura no Pico da Bandeira
Parque Nacional do Caparaó - MG / ES
2/5/2003

Por Chico Nogueira

Quando nós chegamos em Alto Caparaó o sol estava quase se pondo. .
Depois de dar entrada no Parque, começamos a subir (de carro) os 6 Km de estrada de terra que nos levaria ao primeiro acampamento: a Tronqueira. Enquanto íamos subindo a paisagem ia ficando cada vez mais bonita e junto com o pôr do sol chegamos ao acampamento. É uma área bem grande, com estacionamento, banheiros, pias, etc. Tudo muito bem estruturado e conservado.
Como já estava anoitecendo, tratamos logo de armar as barracas.
Éramos em três: eu, o Érico e o Marcelo "Uruca", que apesar do apelido não tem nada a ver com má sorte. É um camarada muito "safo" e prático. O Érico vocês já conhecem do Pico do Frade.
Enquanto íamos levando as coisas do carro para as barracas, ouvi o Érico gritando: olha um tamanduá !! corre... corre...
Caraca! Que sorte! logo na chegada sermos recepcionados por um tamanduá... mas nessa área tem tamanduá ? era só empolgação (ou efeito da altitude de 2000 m, sei lá). Na verdade o tamanduá do Érico era um quati, membro de uma família de um monte de quatis que visitavam o acampamento em busca de comida.
E os bichinhos eram bonitinhos, teve um que até comeu na minha mão. Mas a harmonia com a natureza se quebrou quando começaram a querer roubar a nossa comida. Ouvi neguinho falando que ia fazer chapéu do tipo daquele do Daniel Boone com os pobres bichos.

Depois de tudo arrumado, jantamos e eu fiz um chima pra espantar o frio. Tinha um casal acampado do lado que a garota era gaúcha e claro, não dispensou uma rodada de mate.
Mas estava muito frio mesmo e tínhamos que acordar cedo pra caminhar.
Resolvermos ir de uma vez só, sem dormir no Terreirão, que é o segundo acampamento bem no meio do caminho de 9 Km até o cume. Geralmente as pessoas acampam no terreirão para subir de madrugada a trilha de 4,5 Km para ver o sol nascendo lá no pico. Mas, apesar da trilha ser bem marcada e termos tudo gravado no GPS, caminhar de noite, sem guia... e o frio ?!
É melhor ir de dia mesmo.

Acordamos cedo, fizemos nosso desjejum com direito a banana cozida, pão com geléia, ovos mexidos... os caras capricharam no cardápio... (créditos para Marcelo)
Arrumamos as mochilas só com o necessário e para mim, claro, o necessário nunca é suficiente. Levei umas tralhas que podiam ter ficado, tipo sinalizador, no caso de eu me perder... 
Tinha muita gente subindo. Tinha grupo de jovens, grupo de coroas, família com os filhos, enfim, gente comum querendo subir o terceiro pico mais alto do Brasil e o primeiro inteiramente dentro do território nacional (os outros dois estão em fronteiras com outros países). Vi uma senhora passando por mim usando uma mochilinha da Barbie. E eu cheio de equipo, com aqueles bastões de caminhada (que ajudaram muito, o negocio funciona mesmo). Achei aquilo surreal.
Falando dos bastões, eles ajudaram muito mesmo. Se não tivesse usado, acho que iria sofrer que nem no Pico do Frade. A tela azul não apareceu nenhuma vez !
Já notou que não falei ainda do Érico nem do Marcelo, não é? é que eles tomaram a dianteira e fui ficando pra trás . Fui devagar pra não forçar. Aproveitei esse momento para meditar, pensar na vida... O QUE QUE EU ESTOU FAZENDO AQUI !!! 

Depois de caminhar umas duas horas, só subindo, cheguei no terreirão uns dez minutos depois que eles.
O Terreirão é um acampamento maior que a tronqueira e lá tem a famosa casa de pedra que servia de abrigo para quem quisesse pernoitar ali. Só que de tanto neguinho desesperado (por causa do frio) queimar as portas e janelas pra fazer fogueira e se aquecer, o Ibama desistiu de fazer reformas. Mas hoje, o acampamento também tem a mesma estrutura do primeiro. Tudo muito bom.
Fizemos um lanche, tiramos algumas fotos e já descansados, começamos a subir em direção ao cume. Logo fui ficando pra trás de novo e dessa vez, bem pra trás. Essa segunda parte da subida é bem mais puchada que a primeira. É só subida. Tem umas partes muito difíceis e quando a gente olha lá para o cume e vê a inclinação da subida... muitas vezes eu me perguntava se ia conseguir. E quando eu olhava o visual eu dizia: eu tenho que conseguir.
Passei por um camarada que estava descendo e ele me disse que os últimos 500 metros eram terríveis e os últimos 50 eram de matar. E realmente, quando eu estava chegando, eu vi a cruz que marca o cume ao alcance das minhas mãos e não tinha mais forças pra levar o corpo.
Passou por mim um garoto de uns 13 anos que estava junto com a irmã e os pais. Logo ele estava lá em cima e gritou: Cheguei.... cheguei... 
Faltava pouco. Eu não acreditava que estava conseguindo... mais um pouco.. caraca, que difícil...força... e logo vi a enorme cruz e o Érico vindo na minha direção dizendo que eu tinha conseguido.
Cara, eu estava sentindo enjôo, com dor de cabeça, mas muito feliz. Eu também comecei a gritar "EU CONSSEGUI !!!" e pulei muito no que pra mim, era o topo do mundo.
A primeira providência: tirar a foto. Segunda providência: comer, deitar e descansar. Depois era só aproveitar o pouco tempo lá em cima e guardar a visão daquelas montanhas e paisagens. 
O astral lá em cima é muito bom. Muita gente ligava para as famílias contando da proeza e teve um cara que até soltou fogos!
Eu cheguei uma hora depois que o Érico e o Marcelo. Portanto, não sobrou muito tempo pra mim. Quando foi umas duas horas da tarde, começamos a descer. O tempo estava virando, ficando meio nublado, estava entrando uma frente fria.

Mais uma vez, não vou entrar em detalhes da volta porque não tem muita coisa interessante. A não ser uma hora que eu ouvi o Érico cantando no meio da trilha: "tô nem aiii`...tô nem aiii`... " Enquanto eu me arrastava, cansado... que disposição.
Cheguei no acampamento logo depois que o sol se pôs. Estava exausto e com dor de cabeça. Acho que era por causa da altitude. Tomei um remédio e fui deitar enquanto o Erico e o Marcelo foram pra Alto Caparaó curtir a noite (de novo, que disposição!!).
A frente fria chegou e começou a chover. Uma pena pois tínhamos reservado o dia de sábado para conhecer o resto do parque, seria o "passeio light" da nossa aventura. Chegamos a ir à Cachoeira Bonita que tem 80 metros de queda mas, a névoa não deixou que a víssemos.

Arrumamos as coisas e voltamos um dia antes do previsto. Como o Ibama não devolveu a diária que não usamos, eles deram um vale. Mais um motivo pra voltar e conhecer o que não vi.
Depois eu mando as fotos.

PS: Parabéns pro pessoal do Ibama e guardas florestais pelo atendimento e para os mineiros de Alto Caparaó pela receptividade.
Os quatis invadiram nosso acampamento em busca de comida e me disseram que tinha até quati entre o forro da barraca.