Relato da ida ao Pico do Frade escrito em 29/07/2002

Minhas pernas estão podres, mas valeu a pena.

Chegamos em Bananal na sexta (27/07) às 20 horas mais ou menos. Os primeiros passos eram: encontrar a Lis e procurar uma pousada para o pernoite. Como Bananal é uma cidade pacata, não haveria problema em achar uma vaga, não é mesmo ? é ruim... justamente nesse fim de semana havia um campeonato de skate, a nível nacional e estava tudo lotado.

Logo que chegamos, encontramos a Lis, montanhista que seria a nossa guia. Feitas as apresentações fomos conhecer as outras pessoas que iriam subir ao pico. Segundo a Lis, eram pessoas que não caminham muito, sabe? ritmo moderado...  que bom. Fiquei mais tranqüilo quando eu os conheci. Eu pensei: se eles conseguem, eu consigo.

Bom, mas ainda tinha o problema da pousada. O Érico, que foi comigo, conseguiu um quarto pra gente e a turma da Lis também conseguiu um em outra pousada. Tava dando tudo certo. Marcamos de nos encontrar no sábado, as seis e 15 da manhã na padaria para tomarmos café e seguir até o alto da Bocaina, onde começa a caminhada para o Frade. São mais ou menos 1 hora e meia pela rodovia (?) SP-247, uma estrada de chão batido subindo... subindo... O dia ainda estava com névoa e à medida que subíamos, o céu ia ficando mais azul e lá em baixo aquele mar de nuvens. Estávamos a mais de 1000 metros de altitude. Com aquele dia tão bonito e céu de brigadeiro a empolgação tomou conta da gente.

Tiramos várias fotos no caminho. Que cenário. À medida que a luz mudava, mudava também a paisagem e a empolgação aumentava.

Chegamos ao alto da bocaina umas oito e meia e encontramos um portão com cadeado na entrada que leva ao ponto onde deixaríamos os carros. O Lis voltou para pegar a chave com o dono da propriedade. Com isso, parada para fotos, pegar chave, a caminhada começou umas 9 horas.

O primeiro obstáculo foi um rio com uns 4 metros de largura, mas tinha umas pedras que a gente foi pulando pra chegar na outra margem. Esse início da caminhada é bem critico pois existem várias trilhas prum monte de lado que podem confundir um caminhante desavisado. Mas tínhamos tudo marcado no GPS.

Encontrada a entrada, seguir a trilha foi tranqüilo, fora os "obstáculos" como a Lis chama as subidas, charcos, troncos caídos...

Atravessamos uma clareira de terreno encharcado de onde tivemos a segunda visão da Pedra do Frade. Aí é que a empolgação aumentou mais ainda. Depois entramos na mata fechada. Sobe, desce, e mais lama... tem uma grande parte que é plana mas logo vinha uma subida. Aí é que eu sofria mais. Fui ficando pra trás e se lembra das pessoas que caminhavam moderadamente ? deram um show de bola. Abriram uma distância muito grande demonstrando experiência e muita resistência física. Parecia até corrida de aventura (exagero meu. Eu é que andava devagar mesmo) . Paramos numa outra clareira pra descansar e pegar água num rio. Depois entramos novamente na mata fechada.

De vez em quando o Érico me esperava e seguíamos juntos enquanto a Lis, o Endre e o Yuri já estavam bem mais à frente. Houve um momento que perdemos eles de vista e bateu um certo desespero. O Érico achou que tínhamos pego uma trilha errada. Chamávamos pelos outros e ninguém respondia. Liguei o GPS e não havia sinal dos satélites por causa das copas das árvores. Caminhamos um pouco de volta até encontrar um pedaço de céu. Graças! Consegui pegar uns "pássaros" e a trilha era aquela mesma (eu tinha a trilha gravada que a Lis fez em 1999). O Érico queria voltar tudo de novo e desistir. Mas quando tivemos certeza da trilha, seguimos em frente. Com isso, perdemos uns 20 minutos.

Logo chegamos a uma gruta que fica bem no ponto onde começa a subida pesada para o pico. E lá estava o grupo nos esperando para descansar e fazer um lanche antes da grande subida que dura 1 hora e meia. Perguntei para Lis se eu agüentaria. "... indo no seu ritmo e com determinação, você chega", me disse ela.


Então, lá fomos nós. Digo, eles. Nos primeiros 10 metros de subida já estava com meio palmo de língua pra fora. Fui no meu ritmo: subia um pouco, parava pra respirar e tomar o Power Gel (show de bola), subia mais um pouco e fui indo. Depois de muito subir, cheguei num mirante onde podia se ver a pedra do Frade e a Baía de Angra. Que imagem.

Lá estavam a Lis e o Érico me esperando e pra me dizer que estávamos 1 hora atrasados no planejamento e que íamos pegar uma grande parte da volta no escuro. O Endre e o Yuri seguiram na frente, bem na frente.

A Lis me disse que era melhor eu ficar naquele ponto e não tentar subir o cume. Nem discuti. Fiquei  admirando o visual e a imponência da Pedra do Frade. É muito grande! Nas condições que eu estava, não ia conseguir subir. Talvez se tivéssemos mais tempo e eu indo devagar... mas era melhor não arriscar.

Depois de tempo eu vi o pessoal lá em cima. Fiquei meio triste de não ter conseguido subir e feliz por poder ter chegado até ali. Não era uma sensação de "nadei... nadei... e morri na praia". Não sei explicar o que eu senti.

Tanto planejamento, tanto equipamento, estudo... na prática é outra coisa completamente diferente. Nem usei a mochila nova. Fui com a minha pochete Kailash que atendeu muito bem.

Até eu chegar nesse ponto, foram 4 horas e meia de caminhada em mata fechada. O pessoal ainda andou mais uns 40 minutos até chegar ao cume a 1578 metros do nível do mar. Ficaram uns 20 minutos lá em cima e começaram a descida. Enquanto isso descansei,  fiz um lanche e o tempo todo olhando para a Pedra do Frade, mais uma vez, estudando, guardando todos os detalhes, reverenciando e tentando entender o que a pedra parecia querer me dizer. Ainda estou tentando decifrar esse enigma (que é pessoal) até agora.

O primeiro que eu vi chegando de volta foi o Érico e logo atrás veio a Lis, o Endre e Yuri dizendo que a melhor coisa que eu fiz foi ter ficado naquele ponto pois ia ser difícil eu chegar nas condições que eu estava. Na verdade, economizei energia para a volta que foi muito dolorosa pra mim. Eles descansaram um pouco, tiramos fotos e começamos a descer.


Pensando naquela máxima: "pra baixo todo santo ajuda" achei que a volta seria mais rápida. Claro que me lembrei que a cada descida que eu fiz na vinda, correspondia a uma subida na volta. E foram essas subidas que quase me mataram.

Começamos a caminhada de volta deveria ser umas 4 da tarde, descendo... descendo o mais rápido que podíamos. Como minhas pernas estavam muito doloridas eu fui meio que freiando na descida. Desta vez a Lis e o Érico foram me escoltando e eles realmente foram meus "Anjos da Guarda". O Érico ia na frente, eu ia no meio e a Lis atrás me incentivando a andar mais rápido.

Não vou entrar em detalhes da volta. Pra resumir, foi muito difícil pra mim. Tive muita câimbra nas subidas, pelo menos duas quedas de pressão e no final O Érico foi tipo um motor de popa me empurrando nas subidas. Quando o terreno era plano eu ia numa boa. Mas bastava ter que subir um degrau (mas um degrau de responsa!) que eu passava mal. cada vez que eu pensava em parar a Lis me incentivava a continuar. Ela dizia: não para... se parar é pior... De vez em quando me vinha na mente a imagem de uma tela azul escrito: “Suas pernas executaram uma operação ilegal...”      aí elas travavam. O que seria de mim se não fosse a Lis...

Chegamos no local dos carros umas 8 horas. Pegamos 2 horas de noite na mata e se lembra que nesse ponto (inicio da trilha) era critico por causa de várias trilhas que podiam confundir? pois é... nos confundimos e ficamos uns 15 minutos tentando achar o caminho certo. Mais uma vez o GPS nos salvou. Na hora de atravessar o rio (aquele das pedras que íamos pulando) eu escorreguei na ultima pedra e me molhei todo. Chegamos cansados mas sãos e salvos.

A visão que eu tive da Pedra do Frade valeu todo esforço. Não penso em voltar lá tão cedo mas já sei como é o caminho e o nível de dificuldade da trilha. Quem sabe, uma outra vez?

Abraços,

Chico

PS. * Esqueci de falar das Mutucas (nunca vi um mosquito igual) que eram atraídas pela cor azul. Adivinha qual a cor do meu casaco ?

Me seguiram durante umas 3 horas... bzzzzz

Escrevi esse texto no outro dia da caminhada. Por isso disse que não pensava em voltar lá tão cedo. Agora, sem dores nas pernas, penso diferente.

 

  Esta foi a visão que eu tive da Pedra do Frade.

Pra ter uma idéia da dimensão, aqueles matinhos

na rocha, são na verdade, árvores.

NÃO É MUSGO, É FLORESTA !!
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